Teoria da industrialiação - Otto Peters
De acordo com Otto Peters, a Educação a Distância (EaD) tem sido ignorada por pedagogos e didactas durante um considerável período de tempo. A atestar isto temos os poucos artigos em que se menciona a EaD na sua forma e métodos usados para a instrução. Aliás, ela é mais contemplada como uma possibilidade, com características próprias, em que a relação professor-aluno (entre outros aspectos) é diminuta. Dado que isto (relação professor-aluno) é a forma de instrução principal na sociedade, a EaD tem sido um papel secundário.
A EaD e o ensino tradicional apresentam diferenças. Os primeiros caminhos-de-ferro (símbolo da industrialização) e a primeira correspondência entre escolas foram estabelecidos praticamente ao mesmo tempo. Isto mostra como era necessário o apoio técnico para se ter EaD, como uma forma complementar à era industrial e , mais tarde, tecnológica. Já o ensino tradicional tem as suas raízes nos antigos retóricos, pelo que é uma forma pré-industrial de ensino. Assim, a EaD é a única forma de ensino consistente com a época da industrialização. Contudo, Otto Peters alerta para o facto de não haver uma relação igual entre os processos industriais e os processos de EaD, existem é aspectos comuns – a EaD é um produto da sociedade industrializada.
A industrialização trouxe alterações significativas na sociedade: a racionalização, em que o trabalho individual é substituído pelo trabalho nas fábricas, caminhando-se para uma progressiva especialização dos trabalhadores; as ferramentas dos trabalhadores vão sendo progressivamente substituídas pela mecanização e, mais tarde, a tecnologia; a necessidade de medidas científicas, o sucesso depende do planeamento e organização sistemática; estardatização dos produtos, em que os processos de trabalho são formalizados e o processo de produção objectivado; tendência para a concentração e centralização (o global supera o individual, característica até então bem vincada, como se pode ver na Época Renascentista e seguintes, até ao momento da industrialização).
Assim, para Otto Peters, a teoria de industrialização, ligada à EaD, segue os seguintes elementos: os processos de divisão de tarefas; a mecanização; a produção em massa; a padronização; a centralização;
No processo de divisão de tarefas, o trabalho é dividido e realizado por indivíduos diferentes. Como atrás já foi referido, existe a possibilidade de uma maior especialização. Isto tem como consequência uma redução dos períodos de treino da pessoa bem como a possibilidade de substituir essa pessoa mais facilmente. Isto traduz-se por uma diminuição dos salários porque, desta forma, a mão-de-obra se torna mais abundante.
No caso da EaD, as diferentes tarefas do professor (preparar os conteúdos, ensinar, avaliar, …) são divididos por outros actores distintos. Isto permite uma libertação do professor para outras tarefas. Os materiais são preparados por especialistas e fica a cargo do professor pegar nesse material e torná-lo mais efectivo a sua aplicação. Aliás, a mostrar esta flexibilidade, os professores (quer trabalhem em tempo parcial, quer a tempo inteiro) podem trabalhar
A mecanização trouxe, no período industrial, a divisão de tarefas e retirou muitas tarefas do homem, algumas das quais cerebrais, como acontecem na actualidade com os novos meios de comunicação e electrónica. A criação de “linhas de montagem” permite a manutenção do trabalhador no seu posto de trabalho: é o objecto que se move, não o trabalhador. Isto permite uma produção mais rápida e rigorosa, com menores custos.
No caso da EaD, as etapas de trabalho são divididas em diferentes “partes”, pequenos órgãos de um todo. Temos: os responsáveis pela parte administrativa de matrículas e inscrições; responsáveis pelo envio dos materiais; pela tutória dos alunos; pela realização das tarefas de avaliação; pelos registos dos resultados e emissão de documentos de certificação de aprendizagem.
Temos assim a concepção e produção dos materiais de ensino, realizado por sequência de peritos (autores e especialistas). Assim, o efeito de racionalização, dado pelo facto de os alunos e professores não terem de desempenhar todas as tarefas, poupa tempo, energia e dinheiro.
“Produção em massa”. Os produtos em massa só são possíveis quando existem muitos consumidores. Além disso, requer uma ligação eficaz com esses consumidores, entre produtor e consumidor. De um ponto de vista económico, a produção de cursos à distância representa produção em massa. A produção de produtos padrão e em grande quantidade tem como consequência o abaixamento dos custos.
No caso da EaD, estes “pacotes de materiais de ensino” têm de estar adaptados à sociedade existente (a EaD, em cada país, depende das estruturas sociais e tradições deste): a ambição dos alunos com estes cursos é subir socialmente e de ganhar segurança económica. É preciso ter em atenção que a maior parte dos alunos da EaD são adultos.
Temos, assim, a possibilidade de abarcar, em simultâneo, um grande número de estudantes (ao transferir a transmissão de conteúdos para os materiais de ensino) e atribuir funções (do professor) a outros agentes. A instrução é individualizada, mas quando puder o professor deve aproveitar para motivar o aluno.
No que diz respeito ao planeamento, a separação de tarefas implica um investimento reforçado na fase de preparação e planeamento. Custo iniciais mais elevados mas que, quanto maior for a preparação, menor é a dependência em relação às competências individuais dos trabalhadores envolvidos nas fases seguintes (menores salários).
Além do planeamento, também é preciso saber avaliar para poder depois melhor planear. Dá-se atenção ao individual nos dados obtidos para a avaliação mas sobretudo ao geral, pois a EaD dirige-se a vários grupos. Assim, a aprendizagem dos alunos é medida e graduada.
Um outro aspecto é o facto de estes cursos serem preparados para um número arbitrário de estudantes. Má preparação irá significar vários problemas para os estudantes. Talvez por isso hajam tantos especialistas e professores com experiências nestes cursos.
“A separação do trabalho preparatório e da instrução individual e a distribuição destas funções por várias pessoas é um claro exemplo de analogia com o processo de produção” (Otto Peters, pág. 117).
Por fim, a “objectivação do processo produtivo”. Neste aspecto procura-se diminuir a influência de cada trabalhador, aplicando-se o processo industrial: produção em linhas de montagem, a divisão de tarefas e o reforço das fases de planeamento.
Na EaD, temos a objectivação da concepção e dos materiais de ensino, apoio e avaliação dos estudantes. Os conteúdos são preparados tendo em conta aspectos didácticos e metodológicos, embora o contacto indirecto entre professor e estudantes seja mantido até ao fim. Apesar disto, existem várias formas de o professor influenciar o comportamento de aprendizagem dos estudantes, pois é preciso ter em conta que a EaD envolve, sobretudo, a auto-aprendizagem e o auto-estudo por parte dos estudantes. Isto é fundamental para atingir economias de escala.
Concluindo, Otto Peters procurou facilitar a análise e descrição dos processos de EaD, no sentido de orientar a tomada de decisões neste domínio.
Texto retirado no dia 15 de Fevereiro de 2006, da seguinte fonte:
- PETERS, Otto. (1994) “Otto Peters on Distance Education – The industrialization of Teaching and Learning”. Cota: BCE 37.018.43
- Powerpoint (2005) "Teorias no Domínio da Educação a Distância. Mestrado em Educação - Tecnologia Educativa." Maria João Gomes. Mestrado em Educação: Tecnologia Educativa.


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